
Caraio! Perdi essa !
Costumo, há muito tempo, ir em média três vezes pescar na região pantaneira anualmente.
Julho é sempre a melhor temporada. Dourados e palmitos são um must aí.
Neste ano estava europeiando. Perdi a aventura!
Meus comparsas aventureiros foram até Forte Coimbra/MS.
Tudo normal. Planejados quatro dias dedicados só à pesca.
Aí, no terceiro dia, após a rotina: levantar às quatro e trinta, arrumar-se e à tralha, e zarpar lá pelas cinco e trinta, o mais tardar. Chegar nos melhores points, já secando umas geladas, e preparar varas e iscas, e caipiroscas...Fisgar uns bons peixinhos, entremeados com algumas piranhas e armaus...
Esperar o sol arder na cara, e retornar ao rancho para o almoço. Dormir uma sesta cristã ( sem pecados) e levantar-se para uma próxima jornada vespertina/noturna, onde os grandes pintados e jaús prometem aparecer...
Sai o primeiro barco. E vai lá pras quebradas, aonde o bom piloteiro sabe que moram os bons pescados...
Sai o segundo barco. Mãos de vaca, foram em três num barco normal para dois. O clima abruptamente torna-se de calmo para furioso: más lufadas do vento sul eclodem instantaneamente, a água se crispa, e o barco emborca...
Enfermeiro Mané, cinquentão obeso, sai voando sobre os demais, e prancha num altissonante SPLASH!!!
Piloteiro Buguinho, Dr. Parvis e seu filho Dr. Jarvis, mergulham em nado sincronizado nas águas barrentas do Paraguai.
Aí é o famoso : "Deus nos acuda!!!"
A tarde torna-se cinzenta, o vento arrepia a mais de cem quilometros por hora, as ondas no rio encrespam-se a mais de três metros de altura, e tudo em menos de cinco minutos!!!
Tralha ? Já era!
Dr. Parvis, malandro experiente, salvou sua sacolinha básica : cartões, docs e money.
Seu filho segurou uma bolsa de carretilhas e molinetes, mas só nos primeiros minutos : no sufoco, entregou ao rio.
Piloteiro malaco, Buguinho escalou o barco emborcado. À cavaleira, deu as mãos lado a lado ao Dr. Jarvis e ao enfermeiro Mané. Dr. Parvis bem agarradinho na pôpa.
A essas alturas, o drama já estava sendo observado às margens do Forte: dois recos embarcaram num bote para tentar o resgate.
Vieram afoitos demais, e meteram o bico de seu bote no bico do emborcado:belo furo!
Difícil de controlar, o reco meteu um meião no buraco aberto na proa e avisou: "Não embarquem, senão afundamos juntos!"
"Vou tacar uma corda, e tentar levar voces pra margem..."
E o Buguinho catou a corda, largando o enfermeiro, amarrou-a em seu torso, e berrou : "Vamo qui vamo!"
A essas alturas, um novo barco chegava para o socorro: Seu Lima, dono da hospedaria que os abrigava, veio e socorreu os cagados. Mas, uma observação, o tempo havia retornado ao normal:
a mesma pasmaceira tórrida de todo dia, sem ventos e mais nada. O rio lisinho, como a pele do seio da mulher amada...
Aventuras, aventuras...
Rescaldo final :
Dr. Jarvis : "Bem, fudeu geral, mas agora vou comprar uma tralha moderna e zerada. Pena que perdi o histórico das marcas dos dourados e pintados nas varas !"
Dr. Parvis : "Fudeu grandíssimo, nunca mais entro num barco acima da lotação ideal! Meu pai sempre compra merdas chinesas e paraguaias, ainda bem que o salva-vidas era brazuca!"
Enfermeiro Mané: "Tô traumatizado! Nunca mais entro num barco, nunca mais vou pescar, e muito menos com esse bando de psicopatas. Perdi quase tudo: só sobrou a roupa do corpo. Até os botinões eu joguei pro rio!"
O pior de tudo é que não há outro meio de se chegar à civilização, saindo de Forte Coimbra, que não seja pelo rio acima...
E aí, pra amainar o trauma do Mané, pra suportar quase três horas de barco, foi necessária a ingestão de meia garrafa de cinquenta e um. Aí ele se anestesiou.
Ôrra meu!
Não vejo a hora de participar duma aventura deste naipe!
Essas merdas radicais só acontecem quando estou ausente!
Puta falta de sacanagem, meu !